Como será o amanhã? #3
Com a chegada do novo ano, a questão (que já foi até samba-enredo no Carnaval carioca) volta a circular. Fizemos a pergunta a pessoas negras de vários setores para saber o que esperar de 2023
Em fevereiro de 1978 — seis anos antes da construção do Sambródromo carioca —, a escola de samba União da Ilha do Governador entrava na Marquês de Sapucaí para desfilar um dos sambas-enredo mais emblemáticos da história do Carnaval brasileiro.
Na voz de Aroldo Melodia, o samba “O Amanhã” (Didi/João Sérgio) deu voz a um enredo que materializava, em desfile, a busca do homem pelo futuro. O caminho do samba para encontrar o amanhã: búzios, cartomantes, horóscopos e previsões…
A escola de samba terminou o desfile em 4º lugar. Mas o samba-enredo se tornou um clássico, e ao longo dos anos virou um tema obrigatório na trilha sonora da virada de ano do brasileiro — principalmente para o negro e apaixonado por samba.
O amanhã… Em entrevista ao jornal Metro, Pai Fábio de Oxum avisou que os orixás Oxum e Oxalá devem reger o próximo período. […] “A gente pode esperar de Oxum um ano de compreensão, dinamismo, amor ao próximo, o amor inclusive ao próprio sagrado”, disse o religioso ao jornal.
O portal Exame analisou o futuro da economia brasileira de forma mais pessimista e não projeta nenhum “céu de brigadeiro” para o novo governo. “Somos tudo, menos o país do futuro […] Nossa economia é grande, temos nossas forças, mas daí a acreditar que estamos posicionados para a construção de um futuro melhor, vai uma distância”, diz a publicação.
O [bom] site Gente, apontador de novidades que integra o guarda-chuva do grupo Globo, diz que a provável tendência para o próximo ano é que a inteligência artificial se torne cada mais acessível. O que, aliás, já vem sendo demonstado com o sucesso de aplicativos como Lensa e Picsart, AI Generator, AI Writer e Reface.
Para além das platitudes (e com algumas platitudes necessárias)… Como será 2023? Como será o amanhã?.
Pensando no novo ano/ano novo — e no futuro da negritude no Brasil — a newsletter Seis e Um Podcast traz a pergunta de volta. E várias previsões/respostas!
Falamos com negros espalhados pelo mundo [Brasil, Estados Unidos, Angola, Itália], para saber pistas sobre o que deve acontecer em 2023 — que, aliás, já pede passagem. Feliz Ano Novo!!!
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“O amanhã vai ser o que a gente constrói no hoje: felicidade ou tristeza, conquista ou derrota. O que estamos semeando?”, pergunta a ativista climática Amanda Costa, jovem embaixadora da ONU e fundadora do Instituto Perifa Sustentável.
“O meu amanhã depende do meu hoje! E o meu hoje é conviver com máximo respeito com meus amigos, e sempre estar do lado do que é certo. Que o ano que está por vir seja pleno, com muita saúde e muito samba”, adianta o jornalista e sambista Fernando Penteado, nome ligado à escola de samba Vai-Vai (SP), embaixador mestre do samba paulista e membro da acadêmia dos baluartes do samba paulista.
Sorrir, sim, nós podemos sonhar
Pois temos um futuro pela frente
Punhos cerrados
A Saracura está presente
“O ano de 2023 será de muitas expectativas, principalmente para atividade que eu exerço em relações internacionais. A retomada das relações com África pode dar um novo protagonismo ao Brasil, uma vez que ainda ainda permencerá o conflito entre Rússia e Ucrânia”, diz Silvana Saraiva, empresária e CEO da Feafro.
Jane Barboza [jornalista, escritora e assessora de imprensa de artistas como Zeca Pagodinho, Délcio Luiz e Xande de Pilares] acha que o ano de 2023 promete a mesma felicidade da letra de uma famosa música.
“Citando Guilherme Arantes [“Amanhã”]: "Será um lindo dia | Da mais louca alegria que se possa imaginar | A luminosidade, alheia a qualquer vontade, há de imperar”, comentou Jane por meio do aplicativo de mensagens Whatsapp.
Da Itália, o Professor Luiz Valério Trindade, autor do livro Discurso de Òdio nas Redes Sociais, diz que, em 2023, o Brasil deve começar a se afastar de um período de trevas.
“Tenho expectativas bastante positivas para 2023 no Brasil, pois percebo que, finalmente, estamos saindo de um tempo de trevas e profundos retrocessos em muitas áreas e retomando o bonde da história e da normalidade. Além disso, apesar de a pandemia ainda não ter sido completamente debelada no Brasil e em diversos outros países, felizmente, nos encontramos em uma situação bem melhor para enfrentá-la adequadamente e com substancial redução de taxas de mortalidade, e encaro isso de forma bem positiva.
Ademais, sou também muito realista, no sentido de que acredito que 2023 será um ano de início de um processo de reconstrução do Brasil e, como tal, demanda tempo para que a gente consiga notar seus efeitos práticos.
Contudo, em linhas gerais, estou confiante de que podemos sim promover mudanças substanciais na vida das pessoas, sobretudo da mais vulneráveis e que, lamentavelmente, foram deixadas pra trás ao longo dos últimos quatro anos.”
“Como será o amanhã?
Responda quem puder
O que me irá me acontecer
O meu destino será como Deus quiser
Como será?”
“O Amanhã” - União da Ilha do Governador (1978)
Para a advogada, escritora e mestra em direito político Tamires Sampaio, os nossos passos rumo ao futuro devem passar pela chegada de um novo [e necessário] olhar para as políticas de segurança do País.
Ex-secretária adjunta de Segurança Cidadã da Prefeitura de Diadema (SP), Tamires integrou a equipe de transição do governo Lula no grupo Justiça e Segurança Pública.
“O amanhã será de construção de uma política de segurança pública antirracista, democrática e com cidadania”, aposta.
A publicitária e podcaster Evelyn Azevedo, co-apresentadora do podcast Gemona, prefere adotar um olhar positivista para este futuro que desembarca em 1º de janeiro.
“Tenho me perguntado constantemente para encontrar o lado bom. Sendo assim, acredito que o amanhã será melhor do que hoje”, diz Evelyn.
Já a professora Ellen de Lima Souza, da Unifesp, acredita que “o amanhã será regido pela esperança que se afirma em nossa liberdade!”.
“E vai chegando o amanhecer
Leia a mensagem zodiacal
E o realejo diz que eu serei feliz
Sempre feliz”
“O Amanhã” — União da Ilha do Governador (1978)
Na análise da rapper, apresentadora, ativista Gisele Gomes de Souza, a Nega Gizza, o novo ano será de reconstrução para o País e para a vida dos brasileiros.
“Eu tô com muitas expectativas pro ano de 2023. Acho que esse é o ano da gente tá organizando e ajustando todas as coisas que a gente não conseguimos fazer de concreto em 2022, depois desse dessas turbulências todas que nós brasileiros passamos, né? Vou fazer bem eh tudo em conjunto, né? Eu sei que não foi igual para todos, né? Alguns menos destroçados, outros muito mais, muito mais danificados. Mas eu acho que, no geral, todos passamos por problemas, dificuldades, né?
E com extremos diferentes, mas foi difícil para todos, né? Então acho que é hora de reconstruir. O ano de 2023 é pra reconstrução mesmo das nossas vidas, e do nosso país, principalmente. Estou muito feliz com o nosso país, que vai poder ser reconstruído, e feliz que a gente vai poder botar as coisas no lugar.
Eu estou à disposição para que o nosso país melhore com essa transformação positiva, com essa mudança positiva — por esse aprendizado que a gente teve. E levar isso pra longe, né? Que a gente possa ter esse progresso se eternizando. E a gente, como cidadão, siga contribuindo para tudo isso isso. Estou feliz com 2023! Estou pronta pra enfrentá-lo e para recebê-lo com carinho, amor, sabedoria e concentração e foco”.
“Amanhã, redobrada a força
Pra cima que não cessa
Há de vingar”
O escritor e ex-goleiro de futebol Mário Aranha não consegue vislumbrar um futuro dos mais tranquilos.
“Minha frase favorita é: `Antigas ideias, novos adeptos´. Então, acredito que em 2023 estaremos cheios de novos adeptos ao racismo e ao nazismo. Mas também [teremos] adeptos aos movimentos de resistência”.
Da cidade de Nova York (Estados Unidos), o radialista e comunicador Paulo Brown [criador do programa Balanço Rap, da Rádio 105 FM] se mostra preocupado. Especialista em música negra e apresentador do Grooving (levado ao ar a partir de NY), Brown prefere não apostar no que ainda não consegue ver.
“Nos dias de hoje — com loucos por todos os lados — só Deus sabe [como será o amanhã]”, diz Brown.
O artista angolano Mussunda N´Zombo não aposta em um futuro tão dourado como sugere a letra do samba-enredo do Carnaval carioca de 1978.
“Pensando em 2023, eu creio que ainda será o hoje de 2022, com preconceitos, radicalismo, nacionalismo, racismo, amiguismo, dinamismo, segreguismo, diabolismo. O ISMO em estado de evolução continua”.
O amanhã é ilusório
Porque ainda não existe
O hoje é real
É a realidade que você pode interferir
As oportunidades de mudança
'Tá no presente
Não espere o futuro mudar sua vida
Porque o futuro será a consequência do presente
Parasita hoje
Um coitado amanhã
Um novo ano, mas também um momento mais tranquilo para crescer e vencer... É assim que a Professora Adriana Vasconcelos enxerga o leque de possibilidades abertas pela chegada do novo ano:
“O amanhã será de mais tranquilidade. Para estarmos equilibrados mentalmente e alcançarmos nossos objetivos, e para continuarmos vencendo. Porque a batalha vai continuar — e não será de tranquilidade. Mas estaremos em paz.
Sendo assim: estaremos equilibrados mentalmente e fortalecidos para as ações. Eu vejo um futuro de resgate e dias melhores. Dias que vão oportunizar mais pessoas, e que vão colocar a vida nos trilhos novamente. É assim que eu vejo o amanhã…”.
. “O importante, soldado, é ter um dia melhor
Independentemente do lugar, não estar só
Largado pela cor, invisível pelo pai
E o que vale é de onde veio, é saber pr'onde cê vai”
Hubber Clemente, fundador da startup ESG Afroturismo HUB, acredita que 2023 será um momento de fortalecimento do combate ao racismo.
"Desejo que o amanhã, em 2023, seja com muitos negros e antirracistas descobrindo e praticando afroturismo", diz Hubber.



Já a jornalista Letícia Vidica, apresentadora do CNN Nosso Mundo, da CNN Brasil, prega um olhar mais cuidadoso para as diferenças.
"Espero que 2023 seja um ano de mais acolhimento e gentileza. Que a gente seja mais gentil com as pessoas e possamos escolher mais as diferenças".
Na opinião de Cristhiane Faria/Nega Cléo [relações públicas e fundadora da Griot Assessoria], é importante pensar nos últimos dois anos antes de olhar para o futuro. Ela lembra que renascemos diferentes depois da pandemia da covid-19.
"O amanhã será fruto da colheita de todo o inesperado que aprendemos. E a partir do terceiro ano de uma vida pandêmica enquanto amizades se perderam, relações se reconstruíram — e o autoconhecimento se torna essencial para que consigamos compreender como caminhar".
Para a jornalista e diretora de conteúdo Inaiara Florêncio, o próximo ano deverá nos propor um novo olhar. Ou como ela sugere: um re-olhar para as coisas.
“2023 será um ano de esperança e re-percepção. O caminho da mudança vem acompanhado do treino da RE-PERCEPÇÃO. As tendências nos ajudam a re-perceber o futuro, para que possamos reconstruir a história de maneira diferente, justa, inclusiva e com representatividade. Eu vivo essa revolução, porque acredito que dá pra fazer mais, dá pra fazer diferente”, explica Inaiara.






